O
discurso da essência na adaptação cinematográfica
Francisco
Romário Nunes
Mestrando
em Literatura Comparada - UFC
A
adaptação de obras de diferentes sistemas no cinema existe desde o surgimento
da sétima arte. A literatura tem sido a arte que mais fomenta este tipo de
produção, dialogando de forma intertextual com o cinema. Contudo, ainda há
certo preconceito por parte de alguns críticos da literatura, e também, por
leitores, que defendem o texto literário alegando que as manipulações que
ocorrem no processo de adaptação de um romance, por exemplo, para a arte
cinematográfica destorcem a narrativa literária. Muitos empregam o discurso da
essência, ou seja, afirmam que uma adaptação nunca terá sucesso, pois a
essência da obra literária não pode ser representada nas telas.
Para ilustrar essa
discussão sobre a essência da obra de arte, usaremos uma cena do filme O labirinto do fauno (2006), do diretor
espanhol Guillermo del Toro. Logo após Ofélia (a personagem central da narrativa)
descobrir um labirinto, ela encontra um Fauno, uma criatura mítica que diz ter
possuído muitos nomes. Diante do receio da garota, o Fauno revela à menina que
ela é uma princesa que veio de um mundo subterrâneo, e ainda que ela possui uma
marca que lhe prova tal afirmação:
FAUNO: Você é a Princesa Moanna, filha do rei
do subterrâneo.
Você não vem de
homem, a lua a fez.
Em seu ombro
esquerdo encontrará uma marca que confirma esse fato.
Por todo o mundo
seu verdadeiro pai nos fez abrir portais para possibilitar esse regresso. Este
é o último deles. Mas devemos nos certificar que sua essência não tenha se
perdido e que você não tenha se tornado uma mortal. (O labirinto do fauno, 2005)
Para que a princesa
retorne ao reino de seu pai, ela precisa passar por três provas antes da lua
cheia. Ofélia recebe o livro das encruzilhadas, um livro que lhe mostrará seu
futuro e o que ela deve fazer. Mas o que nos interessa nessa passagem refere-se
à questão da essência. O fauno afirma que é preciso assegurar que a menina não
perdeu a sua essência no período em que viveu na superfície terrestre. Se
relacionarmos este trecho com o discurso que é empregado sobre a essência na
obra de arte, notaremos algumas semelhanças.
A rigor, ao tomarmos a
essência como verdade, qualquer obra literária que passará por um processo de
adaptação, sofrerá alterações, e isto reverbera na transformação da obra,
consequentemente na perda de sua essência. Assim, é como se tirássemos a obra
do reino do subterrâneo e levássemos a superfície. Nesse movimento, o trabalho
artístico estará fadado à deturpação, ao resumo, à objetivação, enfim, sua
construção será revisada a fim de possibilitar a sua leitura em outro sistema,
no caso o cinematográfico.
Diferentemente de
Ofélia, não há como por a obra adaptada a provas para que ela retorne a seu
lugar de origem, pois uma adaptação é um novo constructo narrativo. Vale
ressaltar que “[...] toda a obra literária nasce em contato com outras obras
[...]” (SILVA, 1973, p. 542), portanto, o romance adaptado não é mais uma
narrativa literária, mas um filme. E por ser filme, ele se relacionará com o
seu sistema, a sua estética e poética. O que fica como resíduo não é a
essência, mas um diálogo que defendemos ser intertextual. Assumindo o filme
também como um texto (pois também exige uma leitura), a relação entre as obras
se torna mais interessante se pensarmos nos meios utilizados para representar
cada elemento do texto, ao invés de apontar apenas semelhanças e diferenças.
Assim como na tradução,
uma adaptação
[...] não
transporta uma essência, não troca ou substitui significados dados, prontos em
um texto, por significados equivalentes em uma língua [ou sistema]. A tradução
é uma relação em que o “texto original” se dá por sua própria modificação, em sua
transformação. (RODRIGUES, 2000, p. 206).
Por mais que recusemos
as transformações promovidas pelo intento da adaptação, não podemos cair nos
julgamentos de valores, apenas reproduzindo um discurso oriundo de uma
valoração de uma arte em detrimento de outra. O cinema tem seus meios de narrar
uma história, e o contexto da arte cinematográfica é conduzido por outros
interesses que acabam refletindo no processo de adaptação.
Se acreditarmos que a
essência de uma obra foi perdida no momento em que foi traduzida para um
sistema outrem, porque não pensar que uma outra essência tenha surgido? O que
motiva apenas a perda? Será que também não houve ganhos? O contato entre as
artes favorece o desejo humano de imaginar e criar histórias, e é desta forma
que “As obras, independente da mídia, são criadas e recebidas por pessoas, e é esse contexto
experiencial e humano que permite o estudo da política da intertextualidade.” (HUTCHEON, 2013, p. 12).
O universo criativo se
reduz ao valorarmos o livro e negarmos o filme. Ambos são construções da
imaginação, que através de seus elementos corroboram para disseminar a história
da humanidade. Linda Hutcheon ilustra que “Contar uma história em palavras,
seja oralmente ou no papel, nunca é o mesmo que mostrá-la visual ou auditivamente
em quaisquer das várias mídias performativas disponíveis.” (HUTCHEON, 2013, p.
49). Assim, a capacidade humana de variar a forma como são contadas as
histórias amplia o público e retroalimenta os diferentes meios artísticos,
através da reescrita, da transformação e da comunicação.
Voltando para o exemplo
de O labirinto do fauno, na cena
final do filme, a morte terrena de Ofélia significou o retorno ao seu reino.
Fica quase evidente que ela ainda lembrava-se da vida na terra. Ofélia não
perdeu a sua essência, mas adquiriu mais experiências, graças a seu espírito de
aventura, de querer encontrar o novo, o diferente. A jovem experimentou a vida
na superfície, e levou consigo mais camadas de conhecimento.
Para Robert Stam as “Adaptações
fílmicas caem no contínuo redemoinho de transformações e referências
intertextuais, de textos que geram outros textos num interminável processo de
reciclagem, transformação e transmutação, sem um ponto de origem visível.”
(STAM, 2008, p. 22). Deste modo, nem mesmo os romances, poemas, pinturas,
partituras musicais etc., são puros em suas essências. As obras de arte são
misturas de experiências e criações anteriores que continuam reverberando nos
trabalhos futuros. A hibridização se faz cada vez mais presente, logo, é preciso
assumir que a adaptação é apenas mais uma forma dentre as quais uma narrativa é
possível.
Há uma espécie de
correspondência entre as artes que dificulta perceber a pureza dos gêneros. A
essência de Ofélia não é construída somente com o seu interior, mas também pelo
exterior, que lhe influencia. A obra de arte não existe fora de um contexto,
ela não dialoga somente com ela mesma, pelo contrário, ela é dinâmica, e as
influências dos agentes externos (leitores em diferentes contextos) contribuem
para combinar novos critérios de interpretação.
Ofélia foi capaz de
combinar elementos da vida na terra com o de seu reino subterrâneo. Concluímos,
assim, que uma obra de arte é construída a partir de variadas inserções, sem um
ponto de origem, formando assim um rastro de ingredientes visíveis e invisíveis
que ajudam a contar uma história.
Referência
bibliográfica
SILVA, Vítor Manuel de
Aguiar e. Teoria da literatura.
Coimbra: Livraria Almedina, 1973.
RODRIGUES, Cristina
Carneiro. Tradução e diferença. São
Paulo: Editora Unesp, 2000.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução de
André Cechinel. Florianópolis: Editora UFSC, 2013.
STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo,
magia e a arte da adaptação. Tradução de Marie-Anne Kremer e Gláucia Renate
Conçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
Fiomografia
TORO, Guillermo del. O labirinto do fauno. [Filme] Produção e direção de Guillermo del
Toro. Espanha, Warner Bros Entertainment Inc., 2006. DVD, Colorido/118 min.
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