segunda-feira, 2 de junho de 2014

O discurso da essência na adaptação cinematográfica

Francisco Romário Nunes

Mestrando em Literatura Comparada - UFC

            A adaptação de obras de diferentes sistemas no cinema existe desde o surgimento da sétima arte. A literatura tem sido a arte que mais fomenta este tipo de produção, dialogando de forma intertextual com o cinema. Contudo, ainda há certo preconceito por parte de alguns críticos da literatura, e também, por leitores, que defendem o texto literário alegando que as manipulações que ocorrem no processo de adaptação de um romance, por exemplo, para a arte cinematográfica destorcem a narrativa literária. Muitos empregam o discurso da essência, ou seja, afirmam que uma adaptação nunca terá sucesso, pois a essência da obra literária não pode ser representada nas telas.
Para ilustrar essa discussão sobre a essência da obra de arte, usaremos uma cena do filme O labirinto do fauno (2006), do diretor espanhol Guillermo del Toro. Logo após Ofélia (a personagem central da narrativa) descobrir um labirinto, ela encontra um Fauno, uma criatura mítica que diz ter possuído muitos nomes. Diante do receio da garota, o Fauno revela à menina que ela é uma princesa que veio de um mundo subterrâneo, e ainda que ela possui uma marca que lhe prova tal afirmação:

FAUNO: Você é a Princesa Moanna, filha do rei do subterrâneo.
Você não vem de homem, a lua a fez.
Em seu ombro esquerdo encontrará uma marca que confirma esse fato.
Por todo o mundo seu verdadeiro pai nos fez abrir portais para possibilitar esse regresso. Este é o último deles. Mas devemos nos certificar que sua essência não tenha se perdido e que você não tenha se tornado uma mortal. (O labirinto do fauno, 2005)

Para que a princesa retorne ao reino de seu pai, ela precisa passar por três provas antes da lua cheia. Ofélia recebe o livro das encruzilhadas, um livro que lhe mostrará seu futuro e o que ela deve fazer. Mas o que nos interessa nessa passagem refere-se à questão da essência. O fauno afirma que é preciso assegurar que a menina não perdeu a sua essência no período em que viveu na superfície terrestre. Se relacionarmos este trecho com o discurso que é empregado sobre a essência na obra de arte, notaremos algumas semelhanças.
A rigor, ao tomarmos a essência como verdade, qualquer obra literária que passará por um processo de adaptação, sofrerá alterações, e isto reverbera na transformação da obra, consequentemente na perda de sua essência. Assim, é como se tirássemos a obra do reino do subterrâneo e levássemos a superfície. Nesse movimento, o trabalho artístico estará fadado à deturpação, ao resumo, à objetivação, enfim, sua construção será revisada a fim de possibilitar a sua leitura em outro sistema, no caso o cinematográfico.
Diferentemente de Ofélia, não há como por a obra adaptada a provas para que ela retorne a seu lugar de origem, pois uma adaptação é um novo constructo narrativo. Vale ressaltar que “[...] toda a obra literária nasce em contato com outras obras [...]” (SILVA, 1973, p. 542), portanto, o romance adaptado não é mais uma narrativa literária, mas um filme. E por ser filme, ele se relacionará com o seu sistema, a sua estética e poética. O que fica como resíduo não é a essência, mas um diálogo que defendemos ser intertextual. Assumindo o filme também como um texto (pois também exige uma leitura), a relação entre as obras se torna mais interessante se pensarmos nos meios utilizados para representar cada elemento do texto, ao invés de apontar apenas semelhanças e diferenças.
Assim como na tradução, uma adaptação

[...] não transporta uma essência, não troca ou substitui significados dados, prontos em um texto, por significados equivalentes em uma língua [ou sistema]. A tradução é uma relação em que o “texto original” se dá por sua própria modificação, em sua transformação. (RODRIGUES, 2000, p. 206).

Por mais que recusemos as transformações promovidas pelo intento da adaptação, não podemos cair nos julgamentos de valores, apenas reproduzindo um discurso oriundo de uma valoração de uma arte em detrimento de outra. O cinema tem seus meios de narrar uma história, e o contexto da arte cinematográfica é conduzido por outros interesses que acabam refletindo no processo de adaptação.
Se acreditarmos que a essência de uma obra foi perdida no momento em que foi traduzida para um sistema outrem, porque não pensar que uma outra essência tenha surgido? O que motiva apenas a perda? Será que também não houve ganhos? O contato entre as artes favorece o desejo humano de imaginar e criar histórias, e é desta forma que “As obras, independente da mídia, são criadas e recebidas por pessoas, e é esse contexto experiencial e humano que permite o estudo da política da intertextualidade.” (HUTCHEON, 2013, p. 12).
O universo criativo se reduz ao valorarmos o livro e negarmos o filme. Ambos são construções da imaginação, que através de seus elementos corroboram para disseminar a história da humanidade. Linda Hutcheon ilustra que “Contar uma história em palavras, seja oralmente ou no papel, nunca é o mesmo que mostrá-la visual ou auditivamente em quaisquer das várias mídias performativas disponíveis.” (HUTCHEON, 2013, p. 49). Assim, a capacidade humana de variar a forma como são contadas as histórias amplia o público e retroalimenta os diferentes meios artísticos, através da reescrita, da transformação e da comunicação.
Voltando para o exemplo de O labirinto do fauno, na cena final do filme, a morte terrena de Ofélia significou o retorno ao seu reino. Fica quase evidente que ela ainda lembrava-se da vida na terra. Ofélia não perdeu a sua essência, mas adquiriu mais experiências, graças a seu espírito de aventura, de querer encontrar o novo, o diferente. A jovem experimentou a vida na superfície, e levou consigo mais camadas de conhecimento.
Para Robert Stam as “Adaptações fílmicas caem no contínuo redemoinho de transformações e referências intertextuais, de textos que geram outros textos num interminável processo de reciclagem, transformação e transmutação, sem um ponto de origem visível.” (STAM, 2008, p. 22). Deste modo, nem mesmo os romances, poemas, pinturas, partituras musicais etc., são puros em suas essências. As obras de arte são misturas de experiências e criações anteriores que continuam reverberando nos trabalhos futuros. A hibridização se faz cada vez mais presente, logo, é preciso assumir que a adaptação é apenas mais uma forma dentre as quais uma narrativa é possível.
Há uma espécie de correspondência entre as artes que dificulta perceber a pureza dos gêneros. A essência de Ofélia não é construída somente com o seu interior, mas também pelo exterior, que lhe influencia. A obra de arte não existe fora de um contexto, ela não dialoga somente com ela mesma, pelo contrário, ela é dinâmica, e as influências dos agentes externos (leitores em diferentes contextos) contribuem para combinar novos critérios de interpretação.
Ofélia foi capaz de combinar elementos da vida na terra com o de seu reino subterrâneo. Concluímos, assim, que uma obra de arte é construída a partir de variadas inserções, sem um ponto de origem, formando assim um rastro de ingredientes visíveis e invisíveis que ajudam a contar uma história.

Referência bibliográfica
SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e. Teoria da literatura. Coimbra: Livraria Almedina, 1973.
RODRIGUES, Cristina Carneiro. Tradução e diferença. São Paulo: Editora Unesp, 2000.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Tradução de André Cechinel. Florianópolis: Editora UFSC, 2013.
STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Tradução de Marie-Anne Kremer e Gláucia Renate Conçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
Fiomografia

TORO, Guillermo del. O labirinto do fauno. [Filme] Produção e direção de Guillermo del Toro. Espanha, Warner Bros Entertainment Inc., 2006. DVD, Colorido/118 min.

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