segunda-feira, 9 de junho de 2014

Uma breve explanação sobre as paisagens latino-americanas e a linguagem poética na escrita de Ernesto Che Guevara
(Diários de Motocicleta - 2004)

Alex Bezerra Costa
Graduando em Letras/Português - UECE

          Este trabalho propõe-se a realização de uma análise sobre fragmentos de cartas e demais registros encontrados em diários escritos durante uma aventura/viagem feita por dois jovens (Ernesto e Alberto) pela América Latina, bem como um breve olhar sobre as paisagens e lugares vistos no decorrer da aventura. A partir de recortes de trechos que podem ser observados no filme de Walter Salles, além de outras bibliografias que nos utilizamos para realizarmos uma análise um pouco mais ampla (não nos atando apenas ao que é visto durante o filme), observaremos nos escritos de um dos maiores guerrilheiros e revolucionários que o mundo já conheceu uma linguagem poética e que chega a demonstrar a incrível sensibilidade de um homem que ainda muito jovem decidiu lutar contra a exploração e as injustiças vivenciadas pelo povo latino-americano.  

Este não é o relato de façanhas impressionantes. É uma parte de duas vidas registradas no momento em que cursaram juntas um determinado trecho com identidades de aspirações e conjunção de sonhos”
Ernesto Guevara de la Serna, 1952.  

          Susana Gastal (2005) chamava a atenção para o fato do poder do cinema em despertar o interesse das pessoas em conhecer novos lugares; ainda, além disso, transformar este desejo em uma necessidade. Os cenários exibidos como plano de fundo no cinema vão além do fato de despertar sentimentos e emoções na plateia, mas fazem parte do imaginário coletivo. Gastal ainda nos mostra algo que o cinema pode oferecer aos seus espectadores: o turismo virtual. O filme permite que o espectador realize uma viagem pelos cenários que são mostrados na grande tela; conheça, ainda que virtualmente, um pouco de uma cultura, de um povo e suas tradições. Este tipo de experiência por parte de quem assiste pode causar uma reação de alienação ou de libertação, no sentido, após ter contato com aquilo que foi exposto na tela, feche sua visão, achando que o espaço/ambiente trata-se somente daquilo que foi recentemente visto; assim como pode libertar, fazendo-o entender que a cultura daquele lugar é bem mais ampla do que aqueles recortes mostrados ali naquele curto espaço de tempo.   
           O filme Diários de Motocicleta (2004) teve seu roteiro escrito por José Rivera e foi baseado nos diários de viagem de Ernesto e Alberto, escritos em 1952. Narra a história de dois jovens, um deles sendo Ernesto Guevara (interpretado por Gael García Bernal), estudante do último semestre do curso de Medicina, e Alberto Granado (interpretado por Rodrigo de la Serna), um bioquímico, que decidem aventurar-se pela América Latina em “la poderosa”, uma antiga motocicleta na qual planejaram percorrer um trajeto de 8.000 quilômetros, tendo como ponto de partida a Argentina, passando pelo Chile, Peru até a Venezuela. Ainda antes de iniciar a viagem, Ernesto visita sua namorada, Chichina, e é onde podemos observar a primeira situação no que tange as diferenças econômicas e sociais no filme. A família aristocrata de Chichina não aceita facilmente o relacionamento da filha com um jovem aventureiro.
          Ernesto escreve suas primeiras linhas à sua mãe, bem como prometeu ainda na partida.  Dando seguimento à viagem, a dupla parte em direção ao Chile, onde apreciam as belas paisagens da Patagônia e se deparam com as primeiras dificuldades – também causadas pela moto. A moto, ao longo do caminho, vai sendo “massacrada” pelos seus péssimos pilotos, vindo a quebrar-se totalmente no Chile, obrigando os aventureiros a terminarem sua jornada através de caronas, caminhadas, logo aumentando o tempo previsto para a viagem de quatro para oito meses. A perda da motocicleta representa bem mais que um mero atraso na viagem de Ernesto e Alberto, mas torna-se visível a ruptura na velocidade com a qual a aventura estava sendo conduzida, obrigando agora aos rapazes a fazerem duras descobertas e observações, entre estas o modo de vida dos povos sul-americanos. Em um dos trechos anotados por Ernesto em seus diários, percebemos uma reflexão por parte do jovem acerca da dualidade que há em se cruzar uma fronteira, a divisão existente entre deixar o velho e conhecer o novo, a melancolia  e o saudosismo (ainda que este seja momentâneo):

“Querida Velha,
O que é que se perde em cruzar uma fronteira? Cada momento parece dividido em dois. Melancolia pelo que ficou para trás, e, por outro lado, todo entusiasmo por entrar em terras novas.”

O descaso do governo para com a população também é notado em uma cena onde a presença de Ernesto é solicitada por um camponês para que fosse “consultar” sua mãe, que há tempos estava enferma e em estado grave. Com uma linguagem simples e metaforizada, Ernesto faz uma breve reflexão sobre a impotência em não poder ajudar alguém de bem que lutava por uma vida digna, mas que agora encontrava-se em uma situação quase irremediável.

Querida Mamãe,
No fundo eu sabia que não poderia ajudar àquela pobre mulher, que menos de um mês antes ela servia mesas ou ficava como eu, tentando viver com dignidade. Havia naqueles olhos moribundos um humilde pedido de desculpas e um apelo desesperado por socorro - que se perde no vazio -, como se perderá em breve seu corpo na magnitude do mistério que nos rodeia.
        
Outro momento no filme que é perceptível a problemática social da exploração do trabalho é quando os jovens encontram um casal de índios, no deserto do Atacama, que já viajavam horas em busca de uma vaga para trabalharem em uma mina. Falam sobre o preconceito e as perseguições que sofrem por serem comunistas.

“Aqueles olhos tinham uma impressão sombria e trágica. Nos falaram de uns companheiros que haviam desaparecido em circunstancias misteriosas, e que aparentemente terminaram em alguma parte do fundo do mar. Foi uma das noites mais frias da minha vida, mas conhece-los me fez sentir mais perto da espécie humana, estranha, tão estranha para mim”.

           Na cena seguinte é mostrado o modo exclusivo de como os trabalhadores eram escolhidos, enquanto outros teriam que suportar um pouco mais a miséria causada pela falta de trabalho e fonte de renda. Vemos, então, o jovem Ernesto passando a indignar-se com as injustiças vivenciadas pela população por parte da companhia mineradora – mas tendo a consciência de que o problema é bem maior e mais abrangente. Ao chegar ao Peru, a dupla visita Macchu Picchu, uma cidade pré-colombiana bem conservada, a 2400 metros de altura, localizada no coração da América, e toda a paisagem que um dia pertenceu a uma das maiores civilizações que a humanidade conheceu, os Incas, é ironicamente apresentada aos visitantes por Nestor, uma criança. É ainda em Macchu Picchu onde Ernesto reflete sobre o modelo de sistema que prevalece na exploração das populações nativas. Alberto fala sobre a ideia de casar-se com uma descendente inca, a fundação de um partido indígena e a incitação a uma “revolução indo-americana”. A resposta de Ernesto, que já se deixa perceber com resquícios da construção da identidade de Che, é simplesmente: “Uma revolução sem tiros? Você está louco?”
          Outro momento que merece destaque é a parada feita no leprosário de San Pablo, no meio da Amazônia peruana. O momento marca a transformação dos jovens aventureiros, quando Ernesto e Alberto rompem regras, afastando-se do preconceito e superando as barreiras, aproximando-se dos doentes com um jeito mais humano – o que fazia toda a diferença. Após uma longa estadia na colônia, eles sobem o rio e chegam à Venezuela. Lá a dupla se separa: Alberto decide aceitar a oferta de trabalho no local, enquanto que Ernesto segue seu caminho para no futuro se tornar Che Guevara, ícone das lutas revolucionárias.
          As paisagens e lugares que são expostos durante o filme servem bem mais que meramente plano de fundo à aventura dos jovens argentinos, simboliza um processo de transformação e a construção de personalidades através das experiências vividas nas diversas localidades pelas quais passam, na observação da vida cotidiana do povo sofrido da América Latina – com ênfase no povo indígena. A sensibilidade da linguagem poética de Ernesto Guevara merece uma análise bem mais ampla do que os trechos expostos nesse trabalho, pois há obras nas quais o mesmo fala sobre o trabalho voluntário, o movimento estudantil, das lutas revolucionárias, etc. E em todos estes temas, notamos uma escrita altamente simples, carregada de uma beleza que, se me é permitido, gostaria de nomear “sul-americana”.   




REFERÊNCIAS

CASTAÑEDA, Jorge G. (1997) La Vida en Rojo. Una biografía del
Che Guevara. Alfaguara. Madrid.

CASTELLS, M. A sociedade em rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura, v.1.
São Paulo: Paz e Terra, 1999a.

GASTAL, S. Turismo, imagens e imaginários. São Paulo: Aleph, 2005. (Coleção ABC do turismo)

YOUTUBE. Diários de Motocicleta. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=ZkC178kuabs Acesso em 30 de maio de 2014.


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