Uma
breve explanação sobre as paisagens latino-americanas e a linguagem poética na
escrita de Ernesto Che Guevara
(Diários
de Motocicleta - 2004)
Alex Bezerra Costa
Graduando em Letras/Português - UECE
Este trabalho propõe-se
a realização de uma análise sobre fragmentos de cartas e demais registros
encontrados em diários escritos durante uma aventura/viagem feita por dois
jovens (Ernesto e Alberto) pela América Latina, bem como um breve olhar sobre
as paisagens e lugares vistos no decorrer da aventura. A partir de recortes de
trechos que podem ser observados no filme de Walter Salles, além de outras bibliografias
que nos utilizamos para realizarmos uma análise um pouco mais ampla (não nos
atando apenas ao que é visto durante o filme), observaremos nos escritos de um
dos maiores guerrilheiros e revolucionários que o mundo já conheceu uma
linguagem poética e que chega a demonstrar a incrível sensibilidade de um homem
que ainda muito jovem decidiu lutar contra a exploração e as injustiças
vivenciadas pelo povo latino-americano.
“Este não é o relato de façanhas
impressionantes. É uma parte de duas vidas registradas no momento em que
cursaram juntas um determinado trecho com identidades de aspirações e conjunção
de sonhos”
Ernesto Guevara de la Serna, 1952.
Susana Gastal (2005) chamava a
atenção para o fato do poder do cinema em despertar o interesse das pessoas em
conhecer novos lugares; ainda, além disso, transformar este desejo em uma
necessidade. Os cenários exibidos como plano de fundo no cinema vão além do
fato de despertar sentimentos e emoções na plateia, mas fazem parte do
imaginário coletivo. Gastal ainda nos mostra algo que o cinema pode oferecer
aos seus espectadores: o turismo virtual. O filme permite que o espectador
realize uma viagem pelos cenários que são mostrados na grande tela; conheça,
ainda que virtualmente, um pouco de uma cultura, de um povo e suas tradições.
Este tipo de experiência por parte de quem assiste pode causar uma reação de
alienação ou de libertação, no sentido, após ter contato com aquilo que foi
exposto na tela, feche sua visão, achando que o espaço/ambiente trata-se
somente daquilo que foi recentemente visto; assim como pode libertar, fazendo-o
entender que a cultura daquele lugar é bem mais ampla do que aqueles recortes
mostrados ali naquele curto espaço de tempo.
O filme Diários de Motocicleta (2004) teve seu roteiro escrito por José
Rivera e foi baseado nos diários de viagem de Ernesto e Alberto, escritos em
1952. Narra a história de dois jovens, um deles sendo Ernesto Guevara
(interpretado por Gael García Bernal), estudante do último semestre do curso de
Medicina, e Alberto Granado (interpretado por Rodrigo de la Serna), um
bioquímico, que decidem aventurar-se pela América Latina em “la poderosa”, uma
antiga motocicleta na qual planejaram percorrer um trajeto de 8.000
quilômetros, tendo como ponto de partida a Argentina, passando pelo Chile, Peru
até a Venezuela. Ainda antes de iniciar a viagem, Ernesto visita sua namorada,
Chichina, e é onde podemos observar a primeira situação no que tange as
diferenças econômicas e sociais no filme. A família aristocrata de Chichina não
aceita facilmente o relacionamento da filha com um jovem aventureiro.
Ernesto escreve suas primeiras linhas
à sua mãe, bem como prometeu ainda na partida.
Dando seguimento à viagem, a dupla parte em direção ao Chile, onde
apreciam as belas paisagens da Patagônia e se deparam com as primeiras
dificuldades – também causadas pela moto. A moto, ao longo do caminho, vai
sendo “massacrada” pelos seus péssimos pilotos, vindo a quebrar-se totalmente
no Chile, obrigando os aventureiros a terminarem sua jornada através de
caronas, caminhadas, logo aumentando o tempo previsto para a viagem de quatro
para oito meses. A perda da motocicleta representa bem mais que um mero atraso
na viagem de Ernesto e Alberto, mas torna-se visível a ruptura na velocidade
com a qual a aventura estava sendo conduzida, obrigando agora aos rapazes a
fazerem duras descobertas e observações, entre estas o modo de vida dos povos
sul-americanos. Em um dos trechos anotados por Ernesto em seus diários,
percebemos uma reflexão por parte do jovem acerca da dualidade que há em se
cruzar uma fronteira, a divisão existente entre deixar o velho e conhecer o
novo, a melancolia e o saudosismo (ainda
que este seja momentâneo):
“Querida Velha,
O que é que se perde em cruzar uma
fronteira? Cada momento parece dividido em dois. Melancolia pelo que ficou para
trás, e, por outro lado, todo entusiasmo por entrar em terras novas.”
O
descaso do governo para com a população também é notado em uma cena onde a
presença de Ernesto é solicitada por um camponês para que fosse “consultar” sua
mãe, que há tempos estava enferma e em estado grave. Com uma linguagem simples
e metaforizada, Ernesto faz uma breve reflexão sobre a impotência em não poder
ajudar alguém de bem que lutava por uma vida digna, mas que agora encontrava-se
em uma situação quase irremediável.
Querida Mamãe,
No fundo eu sabia que não poderia
ajudar àquela pobre mulher, que menos de um mês antes ela servia mesas ou
ficava como eu, tentando viver com dignidade. Havia naqueles olhos moribundos
um humilde pedido de desculpas e um apelo desesperado por socorro - que se
perde no vazio -, como se perderá em breve seu corpo na magnitude do mistério
que nos rodeia.
Outro
momento no filme que é perceptível a problemática social da exploração do trabalho
é quando os jovens encontram um casal de índios, no deserto do Atacama, que já
viajavam horas em busca de uma vaga para trabalharem em uma mina. Falam sobre o
preconceito e as perseguições que sofrem por serem comunistas.
“Aqueles olhos tinham uma impressão
sombria e trágica. Nos falaram de uns companheiros que haviam desaparecido em
circunstancias misteriosas, e que aparentemente terminaram em alguma parte do
fundo do mar. Foi uma das noites mais frias da minha vida, mas conhece-los me
fez sentir mais perto da espécie humana, estranha, tão estranha para mim”.
Na cena seguinte é mostrado o modo exclusivo de como os trabalhadores
eram escolhidos, enquanto outros teriam que suportar um pouco mais a miséria
causada pela falta de trabalho e fonte de renda. Vemos, então, o jovem Ernesto
passando a indignar-se com as injustiças vivenciadas pela população por parte
da companhia mineradora – mas tendo a consciência de que o problema é bem maior
e mais abrangente. Ao chegar ao Peru, a dupla visita Macchu Picchu, uma cidade
pré-colombiana bem conservada, a 2400 metros de altura, localizada no coração
da América, e toda a paisagem que um dia pertenceu a uma das maiores
civilizações que a humanidade conheceu, os Incas, é ironicamente apresentada
aos visitantes por Nestor, uma criança. É ainda em Macchu Picchu onde Ernesto
reflete sobre o modelo de sistema que prevalece na exploração das populações
nativas. Alberto fala sobre a ideia de casar-se com uma descendente inca, a
fundação de um partido indígena e a incitação a uma “revolução indo-americana”.
A resposta de Ernesto, que já se deixa perceber com resquícios da construção da
identidade de Che, é simplesmente: “Uma revolução sem tiros? Você está louco?”
Outro momento que merece destaque é a
parada feita no leprosário de San Pablo, no meio da Amazônia peruana. O momento
marca a transformação dos jovens aventureiros, quando Ernesto e Alberto rompem
regras, afastando-se do preconceito e superando as barreiras, aproximando-se
dos doentes com um jeito mais humano – o que fazia toda a diferença. Após uma
longa estadia na colônia, eles sobem o rio e chegam à Venezuela. Lá a dupla se
separa: Alberto decide aceitar a oferta de trabalho no local, enquanto que
Ernesto segue seu caminho para no futuro se tornar Che Guevara, ícone das lutas
revolucionárias.
As paisagens e lugares que são
expostos durante o filme servem bem mais que meramente plano de fundo à
aventura dos jovens argentinos, simboliza um processo de transformação e a
construção de personalidades através das experiências vividas nas diversas
localidades pelas quais passam, na observação da vida cotidiana do povo sofrido
da América Latina – com ênfase no povo indígena. A sensibilidade da linguagem
poética de Ernesto Guevara merece uma análise bem mais ampla do que os trechos
expostos nesse trabalho, pois há obras nas quais o mesmo fala sobre o trabalho
voluntário, o movimento estudantil, das lutas revolucionárias, etc. E em todos
estes temas, notamos uma escrita altamente simples, carregada de uma beleza
que, se me é permitido, gostaria de nomear “sul-americana”.
REFERÊNCIAS
CASTAÑEDA, Jorge G. (1997) La Vida en Rojo. Una
biografía del
Che Guevara. Alfaguara. Madrid.
CASTELLS, M. A sociedade em rede. A era da
informação: economia, sociedade e cultura, v.1.
São Paulo: Paz e Terra, 1999a.
GASTAL, S. Turismo, imagens e imaginários. São
Paulo: Aleph, 2005. (Coleção ABC do turismo)
YOUTUBE. Diários de Motocicleta. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=ZkC178kuabs
Acesso em 30 de maio de 2014.
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