Ensaio
sobre a cegueira
Liana Dodt
Mestranda em Comunicação - UFC
Mestranda em Comunicação - UFC
Das
palavras de um escritor, a história se constrói. “Ensaio sobre a cegueira” é
daqueles livros que já nascem com cara de filme. Ao começar a leitura, é
difícil não imaginar os personagens e os ambientes descritos na narrativa. O
universo criado por José Saramago é inspirador e convida o leitor a refletir
sobre as mais diversas questões humanas. Obra literária muito bem traduzida
para a tela de cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles.
A
fragilidade humana é exposta por uma doença contagiosa e inexplicável. A
cegueira branca torna-se uma metáfora para a impotência dos seres humanos.
Perder a visão, tão repentinamente, desconstruiu a ordem das coisas. Em “Ensaio
sobre a cegueira”, Saramago cria situações incogitáveis para a vida em
sociedade. E se todos ficassem cegos?
Algo parecido com “As intermitências da morte”, narrativa em que o escritor
português questiona: E se as pessoas
simplesmente parassem de morrer?
Em
referência à cegueira, a cor branca está em quase todas as cenas do filme. É um
filme em que a luz entra como personagem, trazendo imagens muito claras, seja
do sol que entra pela janela ou da própria sensação “leitosa” nos olhos dos
cegos. Tudo isso acompanhado de uma trilha sonora que ajuda a criar tensão e
mistério na narrativa.
Assim
como propõe Saramago, o filme não identifica a cidade em que a cegueira começa.
Tudo é universal, pessoas, lugares, situações. Algo que poderia acontecer em
qualquer lugar do mundo. As filmagens são realizadas em diferentes países e com
atores de diversas nacionalidades. A cegueira branca resgata a noção de que
somos iguais, independente de classe social, raça ou escolaridade. Diante de um
mundo que não enxerga, nada mais faz sentido. Resta apenas o instinto de
sobrevivência.
Com a
doença, logo surge a necessidade de isolamento dos infectados. Ironicamente, o
local escolhido para a quarentena é um sanatório desativado. Os cegos passam a
ser discriminados, perdem o direito de voz. Entre os personagens, apenas uma
mulher, curiosamente, não perder a visão. É ela a nossa testemunha, a representação
dos nossos olhos, uma espécie de mãe ou heroína responsável pela humanidade.
Perdendo
a visão, os homens começam a desenvolver os outros sentidos. Ouvir o rádio de
pilha torna-se algo emocionante, assim como a sensação do calor do fogo próximo
à pele. É o conforto de que ainda estamos vivos. Mas assim como os sentidos, surgem
outras formas de adaptação. Dentro do manicômio, afloram os instintos de
liderança, egoísmo e poder. Logo um grupo começa a ameaçar os outros e ditar
regras de convivência. Desencadeia-se uma série de conflitos gerados pelos
comportamentos mais deploráveis do ser humano.
A
cegueira se alastra, fica fora de controle. A vida em sociedade torna-se
inviável, cada vez mais próxima da noção de “fim do mundo”. Falta comida, falta
água, elementos básicos de sobrevivência. Perde-se a higiene, a privacidade, a
esperança. Saramago nos leva ao limite da condição humana. Dali pra frente, a
vida inexiste. São reflexões muito profundas, trazidas por uma hipótese
aparentemente surreal, mas que revela sentimentos humanos extremamente reais.
Mas o
escritor não nos joga nessa dura realidade sem nos dar a chance de superação.
Ele não explica a cegueira, mas não a faz incurável. Assim como ela chega,
repentinamente, ela se vai. Um susto para a humanidade, uma forma de repensar
todos os nossos valores. Tanto no livro, quanto no filme, a narrativa nos
envolve e nos faz reconhecer que somos seres frágeis e vulneráveis diante da
vida.
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