segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ensaio sobre a cegueira
Liana Dodt
Mestranda em Comunicação - UFC

Das palavras de um escritor, a história se constrói. “Ensaio sobre a cegueira” é daqueles livros que já nascem com cara de filme. Ao começar a leitura, é difícil não imaginar os personagens e os ambientes descritos na narrativa. O universo criado por José Saramago é inspirador e convida o leitor a refletir sobre as mais diversas questões humanas. Obra literária muito bem traduzida para a tela de cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles.
A fragilidade humana é exposta por uma doença contagiosa e inexplicável. A cegueira branca torna-se uma metáfora para a impotência dos seres humanos. Perder a visão, tão repentinamente, desconstruiu a ordem das coisas. Em “Ensaio sobre a cegueira”, Saramago cria situações incogitáveis para a vida em sociedade. E se todos ficassem cegos? Algo parecido com “As intermitências da morte”, narrativa em que o escritor português questiona: E se as pessoas simplesmente parassem de morrer?
Em referência à cegueira, a cor branca está em quase todas as cenas do filme. É um filme em que a luz entra como personagem, trazendo imagens muito claras, seja do sol que entra pela janela ou da própria sensação “leitosa” nos olhos dos cegos. Tudo isso acompanhado de uma trilha sonora que ajuda a criar tensão e mistério na narrativa.
Assim como propõe Saramago, o filme não identifica a cidade em que a cegueira começa. Tudo é universal, pessoas, lugares, situações. Algo que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo. As filmagens são realizadas em diferentes países e com atores de diversas nacionalidades. A cegueira branca resgata a noção de que somos iguais, independente de classe social, raça ou escolaridade. Diante de um mundo que não enxerga, nada mais faz sentido. Resta apenas o instinto de sobrevivência.
Com a doença, logo surge a necessidade de isolamento dos infectados. Ironicamente, o local escolhido para a quarentena é um sanatório desativado. Os cegos passam a ser discriminados, perdem o direito de voz. Entre os personagens, apenas uma mulher, curiosamente, não perder a visão. É ela a nossa testemunha, a representação dos nossos olhos, uma espécie de mãe ou heroína responsável pela humanidade.
Perdendo a visão, os homens começam a desenvolver os outros sentidos. Ouvir o rádio de pilha torna-se algo emocionante, assim como a sensação do calor do fogo próximo à pele. É o conforto de que ainda estamos vivos. Mas assim como os sentidos, surgem outras formas de adaptação. Dentro do manicômio, afloram os instintos de liderança, egoísmo e poder. Logo um grupo começa a ameaçar os outros e ditar regras de convivência. Desencadeia-se uma série de conflitos gerados pelos comportamentos mais deploráveis do ser humano.
A cegueira se alastra, fica fora de controle. A vida em sociedade torna-se inviável, cada vez mais próxima da noção de “fim do mundo”. Falta comida, falta água, elementos básicos de sobrevivência. Perde-se a higiene, a privacidade, a esperança. Saramago nos leva ao limite da condição humana. Dali pra frente, a vida inexiste. São reflexões muito profundas, trazidas por uma hipótese aparentemente surreal, mas que revela sentimentos humanos extremamente reais.

Mas o escritor não nos joga nessa dura realidade sem nos dar a chance de superação. Ele não explica a cegueira, mas não a faz incurável. Assim como ela chega, repentinamente, ela se vai. Um susto para a humanidade, uma forma de repensar todos os nossos valores. Tanto no livro, quanto no filme, a narrativa nos envolve e nos faz reconhecer que somos seres frágeis e vulneráveis diante da vida.

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