Labirinto
do Fauno e a Natureza dos Sonhos
Lauriberto Carneiro
Graduando
em Jornalismo pela UFC
Relacionarei nesse texto o mundo dos sonhos criado pelo filme
“Labirinto do Fauno” com o conceito da
filosofia clássica de “natureza dos sonhos”, como também falarei de outros
elementos importantes da película.
Nesse filme, Ofélia,
a personagem principal, faz uma espécie de Odisseia na qual o principal
objetivo é entrar totalmente no mundo paralelo a realidade que é proposto no
longa. Nessa jornada ela conta com um auxílio de um ser mitológico que
representa o mundo natural, tanto que ele se apresenta dessa forma: "Eu fui chamada de tantos nomes que apenas o vento e
as árvores podem pronunciar. Eu sou a montanha, a floresta, a terra... Eu sou
um fauno ".
O mundo
dos sonhos apresentado na história, pode ser encarado como algo que estabelece
uma grande relação com a realidade, como exposto artigo de Bento Prado Jr, “A
imaginação: Fenomenologia e Filosofia Analítica”. A construção dos sonhos só é
possível a partir de elementos do real, sendo nossos delírios, uma espécie de
interpretação diferente do universo em que vivemos.
É
possível observar que esse mundo real e imaginário estão muito interligados,
algo que explicita bem essa ligação é a mandrágora que o Fauno dá para a
Ofélia, que é um objeto vindo do mundo irreal e que ao mesmo tempo é
reconhecido por pessoas do mundo ordinário. O caderno que a heroína usa também
viabiliza essa ligação, pois como um elemento perceptível para as pessoas do
mundo real, ele tem seu quê de fantástico quando começa a formar uma imagem
sangrenta de um útero no momento em que sua mãe sofre as consequências de uma
gestação mal planejada. Outro objeto que faz essa ligação é o giz de cera, que
aparentemente parece algo comum, porém ele usado para abrir portais para o
mundo de fantasia criado no filme.
Há
também uma forte relação dessa obra do cinema com a literatura, pois o longa
apresenta diversos elementos do conto de fadas, como a presença de um herói, um
vilão, uma jornada e um mundo fantástico. Essa relação é inclusive explicitada
no filme, pois em vários momentos vemos Ofélia lendo um livro de conto de
fadas.
A
história tem uma proposta de dividir as pessoas entre aquelas que são capazes
de perceber um mundo além do nosso, das que não são capazes. O principal
símbolo usado para representar essa percepção é o olho. Isso é claramente
percebido quando a protagonista tem que colocar um olho em uma estátua como
parte da jornada proposta pelo Fauno. Os outros personagens também parecem ter
pouca ou até mesmo nenhuma ligação com esse mundo, chegando ao ponto de que a
mãe de Ofélia a aconselhe a parar de fantasiar tanto, quando isso acontece ela
confessa que também sonhava com contos de fada, mas com o passar do tempo foi
deixando isso de lado e passou a aceitar a realidade em que vive.
Um
momento do filme em que percebemos nitidamente a divisão proposta é em uma das
cenas finais, na qual o vilão da trama, Capitão Vidal, chega no momento em que
Ofélia fala com o Fauno sobre a última etapa da jornada e vê apenas ela falando
sozinha.
A
história do longa é marcada pela presença de conflitos de tropas, comandadas
pelo capitão Vidal, com rebeldes republicanos no contexto do governo fascista
de Franco na Espanha. Esse acontecimento serve para aproximar a trama do filme
para a realidade ao estabelecer uma relação direta com importantes
acontecimentos históricos. Isso também nos mostra como a realidade pode ser
cruel e desoladora, o que faz com Ofélia use a sua imaginação para criar seu
próprio mundo de fantasia, onde as pessoas más não estão no poder, mas sim
pessoas puras de coração, como a própria Ofélia, apesar disso esse mundo também
tem um toque bastante sombrio, sendo o lar de muitas criaturas grotescas e
monstruosas, como o próprio fauno e o guardião de um banquete que Ofélia tem
que enfrentar como uma de suas tarefas. Não só os habitantes desse mundo tem
essas características, como também o ambiente, que é sempre mal iluminado e com
elementos pessimistas como florestas livre da presença de pessoas, mas com a
presença de animais hostis.
Como
tarefa final para se tornar definitivamente uma princesa, a protagonista tem
que derramar o sangue de um inocente, o Fauno pede então que ela mate seu irmão
mais novo, algo que depois de recusar fazer ela aceita a incumbência, porém ela
é interrompida quando o capitão Vidal a mata, resultando no cumprimento de sua
jornada, pois sangue inocente foi derramado.
A partir
disso o final do filme possui duas interpretações, uma relacionada ao mundo dos
sonhos, em que Ofélia rompe totalmente sua ligação com o mundo real e retoma
seu posto de princesa no seu mundo fantástico, outra relacionada a realidade
concreta em que vivemos, em que a personagem principal morre e se torna um
mártir da resistência contra os franquistas na Espanha.
Apesar
de o filme não ser nenhuma adaptação de uma obra literária específica, podemos
ver nele grandes referências a obras de contos de fada em geral, fato esse que
nos permite afirmar que o filme a partir da interpretação do diretor de ideias
já existentes, ou seja foi feita uma espécie de análise dialética das histórias
infantis, as quais Guilherme Del Toro nos apresenta de uma forma totalmente
diferente das quais nós estávamos acostumados, pois os seres fantásticos
retratados não são o retrato da bondade e da pureza como são o das histórias
que são contadas para a criança dormir, em vez disso, são seres sombrios, que
habitam as trevas e que quando não apresentam um comportamento de antagonismo
com Ofélia, tem um comportamento duvidoso, que não nos permite saber facilmente
se estão do lado da personagem principal ou não, como é o caso do Fauno.
Esse
processo de ter como influências obras existentes para ter como resultado um
produto muito diferente do que é proposto por elas, pode ser encontrado em um
dos manifestos do movimento modernista brasileiro, que é a antropofagia, na
qual o escritor brasileiro “devorava” tudo aquilo que vinha do estrangeiro para
“regurgitar” um produto genuinamente brasileiro, algo que acontece no filme,
pois foi “devorada” a ideia central dos contos de fada, para ser “regurgitado”
a adaptação sombria vista no mundo dos sonhos de Ofélia.
Referências
-TORO, Del Guillermo.O Labirinto do Fauno [Filme]. Dirigido
por Guillermo Del Toro. Produzido por Guillermo Del Toro. EUA. 2006.
-O Labirinto do Fauno: entre a fantasia e a realidade. <http://alimenteocerebro.com/o-labirinto-do-fauno-entre-a-fantasia-e-a-realidade/>. Acesso em 20/05/2014.
-O Simbolismo Esotérico de 'O Labirinto do Fauno'. <http://midiailluminati.blogspot.com.br/2011/03/o-simbolismo-esoterico-de-o-labirinto.html>. Acesso em 20/05/2014.
-TRIPICCHIO, Adalberto. Comentário sobre artigo do filósofo Bento Prado
Jr.: “A imaginação: Fenomenologia e Filosofia Analítica. Brasil. 2008.
-CAMPOS, Haroldo.Da
transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. Belo
Horizonte: FALE/UFMG, 2011.
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