A
fantasia e a realidade dentro do mundo cinematográfico, no filme
O labirinto do fauno.
Thais
Maia Mendes da Silva
Licenciatura em Letras-Português, UFC.
O
Labirinto do Fauno, produção de Miguel Del Toro, é um filme muito bem
construído e ganhador de vários prémios, entre eles estão o de Melhor Roteiro
Original no prémio Goya, Melhor Som também no Goya, entre outros. Ele se
desenrola em torno de dois mundos: o real e o fantástico; que estão intrissecantemente
ligados e separados ao mesmo tempo. Para melhor entendermos a complexidade na
qual se desenrola tal trama serão analisados a seguir alguns pontos chaves.
Como
já foi dito, todo enredo do filme transita entre o fantástico e o real, por
intermédio da personagem Ofélia, que dá ao espectador a visão desses dois lados
da história. Ofélia seria como um ponto de ligação entre esses “dois mundos”. Porém
não é somente ela que se apresenta como ponto de ligação; há vários momentos ao
longo da trama que sugerem certa proximidade entre ambos e validam a existência
dos dois mundos dentro do enredo para além de Ofélia. Um desses momentos é quando
o giz mágico, dado pelo Fauno a Ofélia para que ela mesma construa novos
caminhos de fuga, se faz presente também no mundo real, no instante em que
Mercedes vê os riscos do giz em uma parede, e quando o Capital Vidal vê e toca
o giz deixado por Ofélia em seu quarto, na ocasião em que ela rouba o bebê. A
mandrágora também é outro ponto de encontro entre o real e o fantástico ,
quando tal raiz mágica, dada pelo Fauno a Ofélia, é colocada embaixo da cama da
mãe desta para ajudá-la no parto, muitos espectadores do filme podem ter
acreditado que ela não seria vista por ninguém do mundo real, pelo fato de ser
mágica, no entanto ela não só é vista como destruída pelo Coronel Vidal.
Tais
momentos nesse filme validam a existência do fantástico no mundo real. Assim
pode-se concluir que essa fantasia não é apenas fruto da imaginação de uma
garotinha que tenta de todas as maneiras fugir da insuportável realidade que a
rodeia, tal mundo encantado verdadeiramente existente de forma oculta, e é
independente das vontades de Ofélia, ou seja, vai muito além da própria Ofélia.
Ao
passo que existem esses momentos de unidade entre a fantasia e o real, existe,
também, momentos de total disjunção, em que um dos mais marcantes é no final do
filme, quando Ofélia conversa com o Fauno no labirinto, e chega o Capitão Vidal
que, simplesmente, não ver o Fauno, apenas enxerga Ofélia e o bebê que ela
segura, que é o seu irmão. Sabemos dessa cegueira do Capitão por meio das
tomadas feitas do ponto de vista da Ofélia e do dele, onde nesta o Fauno não
aparecia e naquela sim. Dessa forma analisemos que, embora tenhamos elementos
dentro do plano real que são oriundos do mundo fantástico, estes não delatam de
fato a sua existência, pois se observarmos bem o giz e a mandrágora, por exemplo,
são elementos que sabemos estarem ligados ao fantástico, mas não são
suficientemente representativos deste, a ponto de apenas com eles alguém
descobrir este mundo, tanto que o contato que o Capitão teve com o giz não lhe
revela a existência desse outro mundo. Porém ver o Fauno seria significativo,
pois ele sim é a representação, se não a própria fantasia em si. No entanto como
tal mundo não é acessível a todos, o Capitão não poderia ter capaz de vê-lo.
Ambientado
na Espanha franquista de 1944, no Pós-Guerra civil Espanhola o filme possui
momentos de violência e guerra, sempre apresentadas por cenas chuvosas e
lamacentas onde predomina o tom marrom e cinza. Tais quadros montados para
essas cenas possuem um carregado valor semiótico que auxilia na construção do
sentido, colaborando para uma contraposição dos momentos de fantasia, onde o
cenário é completamente outro; em vez de chuva temos um céu totalmente limpo, e
quase sempre com um luar inspirador; e em vez de cores mortas tem-se toda a
cena banhado por um vivo azul marinho que sugere vida e magia. Assim, não só o
enredo mas o cenário também vêm como um divisor entre esses “dois mundos”.
O
primeiro de todos os objetos dados pelo Fauno a Ofélia é o livro que tem a
função de lhe dá instruções a cerca das tarefas que esta deve cumprir. Tal
objeto não é escolhido aleatoriamente, apresentando, assim, uma grande
significação. Se observarmos que é do livro que provém às histórias fantásticas
e é por meio dele que elas se imortalizam, então é mais do que lógico que venha
a existir um entrelaçamento entre o livro e o fantástico no filme. Podemos até
dizer que é só pelo fato de Ofélia ser apaixonada pelas histórias de seus
livros que ela consegue ter acesso a esse mundo encantado.
Há
momentos em que o fantástico faz fortes críticas à dura realidade ditatorial da
Espanha franquista. Um desses momentos é na realização da segunda tarefa de
Ofélia, onde ela se encontra em um salão que tem uma longa mesa, com um
magnífico banquete, que é extremamente tentador. Na ponta dessa mesa está um
demônio imóvel. A alegoria que se faz é que o demônio representa o carrasco
regime ditatorial e o banquete sobre a mesa seria a forma ilusória sobre a qual
a ditatura é exposta. Durante a realização dessa tarefa Ofélia não pode comer de
nada que está sobre a mesa, entretanto ela não consegue vencer a tentação e
ousa comer uma fruta, imediatamente o demônio desperta e a persegue com a
intenção de matá-la; no entanto com sorte ela consegue escapar, mas não sem
antes terem morrido pelas mãos do demônio duas das três fadas que acompanhavam
Ofélia nessa tarefa. As mortes das duas fadas são relacionadas às mortes de
vários inocentes, que, inevitavelmente, ocorrem durante a ditadura. Assim,
participar de um regime autoritário como esse, requer que se feche os olhos
para muitas atrocidades, tal interpretação é extraída do perfil do demônio cujos
olhos não estão no rosto e sim nas mãos.
A
alegoria ao sacrifício é algo contundente tanto no mundo real como no
fantástico. Em ambos, tal ato é visto como um caminho para a imortalidade. O Capitão
Vidal, ao longo de todo o filme apresenta uma forte obsessão por um relógio
herdado de seu pai. É como se por meio desse relógio ele marcasse o momento
certo para a sua morte, pois a morte por ele é vista como um ato de
glorificação, que o imortalizará na história, transformando-o no herói da
pátria. No mundo fantástico também temos o sacrifício como um ato honroso e
digno de glorificação. É preciso que Ofélia se sacrifique pelo seu irmão,
impedindo que ele seja ferido pelo Fauno, para que assim conseguisse alcançar o
prémio de ser uma princesa nesse mundo encantado.
Aproveitando
esse momento em que falo da morte de Ofélia, é relevante enfatizar o papel
apaziguador que a fantasia tem para com a realidade, em especial nessa cena.
Pois que triste final teríamos se olhando apenas pelo viés do mundo real, onde
Ofélia é friamente assassinada pelo Capitão Vidal. No entanto, o fantástico vem
para mostrar que Ofélia apenas deixa o mundo real para passar a viver completamente
no mundo fantástico.
Enfim,
o fantástico e real separam-se e unem-se nessa incrível produção de Miguel Del
Toro, que tão habilmente compõe o enredo de forma a mostrar que o fantástico
não é imaginário e sim tão real quanto a realidade.
Referência:
ZAGNI,
Rodrigo M. O Labirinto do Fauno: Escolha
e sacrifício no filme de Miguel Del Toro.
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