terça-feira, 27 de maio de 2014

Cinema e Cultura: o caminho do labirinto - Por Alef Lima.

Cinema e Cultura: o caminho do labirinto

Alef Lima
Graduando em Ciências Sociais - UFC


O cinema trabalha com fragmentos de temas e com fragmentos de espaço e de tempo de diferentes grandezas, muda-lhes a proporção e entrelaça-os segundo a contiguidade ou segundo a similaridade e o contraste, isto é: segue o caminho da metonímia ou da metáfora (os dois tipos fundamentais da estrutura cinematográfica) - Roman Jakobson. Linguística, poética, cinema.

            Considero uma atividade delicada discutir sobre o cinema, pelo menos para mim que até um dia desses só o enxergava a partir de uma interpretação imposta por mim enquanto espectador. No decorrer das discussões e das leituras que pude ter acesso ao longo do Curso de Extensão[1], consegui minimamente compreender outros aspectos concernentes à arte cinematográfica e como ela mantém contatos, relações, reciprocidades com outros domínios semióticos, tais quais, a literatura, a cultura, a mitologia, a história. Nesse sentido a proposta deste ensaio é perceber minimamente uma possível relação intersemiótica entre a figura do um labirinto (relacionado ao filme que será abordado), e a dimensão da cultura.
            Como o cinema se assume enquanto modo de dizer autônomo e mesmo assim atravessado pelo dizer da cultura? Essa pergunta é um tanto redundante e conserva implícita uma reposta já acabada.  O cinema enquanto arte autônoma vê-se inserido nas tramas do contexto social de sua produção/reprodução, não é por acaso que a cultura interfere no conteúdo no qual ele utiliza. Mas seria tão simples essa inter-relação, a cultura simplesmente fornece conteúdo ao cinema enquanto ele lhe garante uma forma, quer dizer, que o cinema esvazia-se de conteúdos para garantir ao dizer da cultura uma nova forma, um novo estilo? Pelo visto nossa pergunta ganha outros contornos quando configurada em conjunto com o debate sobre as formas e os conteúdos. Agora a resposta previamente acabada desintegra-se, segundo essa nova perspectiva.
            Vejamos que nesse momento o que está colocado em jogo é se existe nos cinemas conteúdos e se as culturas também podem conferir formas aos cinemas. Para tanto é bom que esta hipótese seja melhor elaborada numa análise, e que o plural das palavras cinemas e culturas seja usado na tentativa de deixar mais aberta a envergadura da mesma. De todos os filmes que vimos nos quatro encontros ao longo do curso já mencionado, o filme de Guillermo del Toro, O Labirinto do Fauno (2006) é de longe aquele no qual as relações entre cultura, história e cinema se processam de maneira mais explícitas. Considerando evidentemente o interesse do diretor em dar ênfase nessas fronteiras semióticas, mostrando-as do ponto de vista daquele que está para atravessá-las, portanto é na travessia que os signos tornam-se mais densos e, com efeito, mais “vistosos”.
            No filme a pequena Ofélia de 13 anos vê-se envolvida por uma narrativa fantástica, onde criaturas mágicas se interpõem à jovem heroína. Uma dessas criaturas é o fauno, um curioso hibrido antropomórfico, coberto de terra com ossos e pele de maneira, com chifres de bode e com o tronco mimético ao peitoral humano. O fauno lhe conta uma história, na qual ela (Ofélia) é descrita como uma princesa perdida que vagava há tempos pelo mundo humano, seu pai que é um rei poderoso, abriu vários portais sobre a terra aguardando seu retorno. Inclusive aquele onde ela estava: o labirinto.
            Essa narrativa exuberante e mítica é colocada em contraste com um contexto histórico trágico e violento. Onde é retratada a guerra civil espanhola (1944),  rebeldes lutam nas montanhas contra a ditadura fascista de Franco. Não por acaso Ofélia e sua mãe estão morando com um dos generais que comanda o núcleo de ataque aos resistentes. Este general assume o arquétipo do mal e da violência, e também representa um orgulho machista que não tardará a ser desmembrado pelo advento da potência do feminino.
            Nossa heroína é testada em três provas que lhe servem como meio de angariar reconhecimento, que legitimem a essência de realeza que ela possui. A primeira prova é libertar do apodrecimento uma árvore ancestral que estava sendo ameaçada por um sapo gosmento. Destruindo o sapo, ela salva a árvore.  Na segunda prova ela deve conseguir encontrar uma chave que é guardada por um banquete portentoso, mas o anfitrião desse banquete é um monstro antigo que devora crianças, seus olhos são postos nas palmas da mão e seu corpo causa repugnância. O fauno dar a Ofélia um pedaço de giz e três fadas são mandadas ao encontro da criatura junto com ela, o giz é utilizado para abrir a porta do salão, onde o monstro se localiza. Ela consegue, porém duas das fadas enviadas pelo fauno são mortas.
             Nesse meio tempo, sua mãe, que estava numa gravidez difícil, morre e o relacionamento com o general tornar-se cada vez mais insuportável, e cada vez mais a guerrilha da resistência avança e a história transforma-se num labirinto de encontros. Ofélia e Mercedes (espécie de copeira da casa em que vivia o general, Ofélia e sua falecida mãe). Ela nutria afetos maternais pela menina e era membro secreto da guerrilha. Mercedes é descoberta e o general tenta intimidá-la, no entanto ela foge. Nessa cena da fuga Mercedes procura Ofélia para se despedi, a menina implora para ir com ela. Ambas saem e tentam atravessar o rio que corta as montanhas onde a guerrilha está escondida, porém no meio do percurso são pegas.
            Na cena final Ofélia é morta pelo general dentro do labirinto no momento em que decide não realizar sua terceira e última prova, sacrificar seu irmão recém-nascido. Ao sair do labirinto o general ver-se cercado pela resistência, entrega seu filho a Mercedes, tenta falar algumas palavras, mas é morto no primeiro espaço de tempo em que seus lábios de fecham. Chegando a ser meio mórbido, querendo ou não existe a sensação que a cena devia acontecer de qualquer maneira.
            O que haveria de cultura no filme descrito? Bem, poderíamos de início considerar que o filme utilizar-se do recurso do fato histórico em paralelo para realizar uma metáfora do processo social que estava em curso, a dimensão política é tratada como ponte entre o imaginário de Ofélia e os eventos da realidade retratada. Afinal de contas, uma princesa que deve ressurgir para recuperar sua essência perdida no mundo humano, nessa performance, ela acaba por posicionar-se contra algo ou contra alguém. Porém não é apenas a única questão que pode ser levantada. As analogias com essa dimensão da mitologia ocidental são imprescindíveis, quando queremos observar que a elaboração fílmica se apropria das formas da cultura para contar sua história.
            Tomamos para isso o labirinto que é tão caro a cultura ocidental, onde sujeito perde-se para se encontrar, onde o esforço individual redunda na construção meritocrática do herói. O labirinto é usado no mito de Teseu quanto ele enfrenta o minotauro, destruindo a fera e seguindo os fios do novelo dado pela princesa para sair de lá. Mas Ofélia não é Teseu, nem possuía o novelo que lhe garantiria a redenção. O labirinto do filme não é só uma parte a mais do cenário, é nele que os processos paralelos entre história e imaginário são possíveis, é por ele que se encontram. Ele nos serve como um espaço exemplar de semiosfera; o labirinto e seus caminhos abrem-se para Ofélia ao mesmo tempo em que se fecham para o general que a persegue. Esclarecendo assim, que tudo que se localiza dentro do mundo de Ofélia é um não mundo para seu perseguidor, considerando que na semiosfera: “Las estructuras externas, dispuestas al outro lado de la frontera semiótica, son declaradas no-estructuras.” (LOTMAN, 1996, p.16).
            O conceito de semiosfera definido pelo semioticista Iúri Lótman (1922-1993)[2], é posto em destaque por permitir que dentro do labirinto compreendido enquanto espaço intersemiótico entre os fatos das culturas e os meios da narrativa cinematográfica entrem em diálogo, ele fornece em suma uma estrutura aberta que move-se na associação entre os signos. Nesse sentido, o que é a semiosfera, senão o espaço/meio/habitat onde se elaboram e se articulam as implicações entre os signos, significando a possibilidade de sua interação e sobrevivência? A forma e o conteúdo se diluem, o que resta agora da dualidade? A forma fílmica empresta-se a narrativa histórica, a narrativa histórica como atributo da cultura confere maior nitidez à forma fílmica. Qual das duas é a forma e qual é o conteúdo?
            Se o cinema se organiza pelos fragmentos ajuntando-os segundo suas potencialidades, por que não esperar que exista o transbordamento dos seus signos, e assim perceber que o cinema enquanto linguagem recorre a um conjunto de dizeres que se referem às culturas. O labirinto é um espaço projetado por uma ordem, mas tem como função causar desordem, confundir os percursos, fazer emergir as encruzilhadas. É esse seu sentido, o efeito dele no filme citado é fazer com que ocorra uma reescritura: a cultura se inscreve no cinema, o cinema reescreve a cultura para adensar os seus efeitos subjetivos no espectador. E com tudo isso que foi descrito e dito, podemos imaginar outras metáforas para a semiosfera, mas por hora, apenas entremos no labirinto para encontrar na última saída o retorno aos seus caminhos que podem nos levar ao cinema ou às culturas.

Referências:

BAKHTIN, Mikhail. (V. N. Volochínov) Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. 14ª Ed. São Paulo: Hucitec, 2010.
BRAIT, Beth (Org.). Bakhtin: conceitos-chave. 5ª Ed. São Paulo: Contexto, 2012.
CAMPOS, Haroldo. Da transcriação: poética e semiótica da operação tradutora. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2011.
EVEN-ZOHAR, Itamar. Polysystem studies. Poetics today 11: 1. 1990.
JAKOBSON, Roman. Linguística, poética, cinema. 2ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.
LOTMAN, Iúri M.. Semiosfera: de la cultura y del texto. Selección e traducción del russo por Desoderio Navarro. Frónesis Cátedra. Universitant de Valéncia, 1996.
MACHADO, Irene (Org.). Semiótica da cultura e semiosfera. São Paulo: Annablume, 2007.
PASSETTI, Dorothea Voegeli. Lévi-strauss, Antropologia e arte: minúsculo – incomensurável. São Paulo: EDUSP, EDUC, 2008.
TOLEDO, Dionísio. Círculo linguístico de praga: estruturalismo e semiologia. Textos reunidos, anotados e apresentados por Dionísito Toleto; traduções de Zênia de Faria, Reasylvia Toledo e Dionísio Toledo. Porto Alegre: Globo, 1978.
TORO, Del Guillermo. O Labirinto do Fauno [Filme]. Dirigido por Guillermo Del Toro. Produzido por Guillermo Del Toro. EUA. 2006.
VANOYE, Francis. Ensaio sobre a análise fílmica / Francis Vanoye, Anne Goliot-Leté; tradução de Marina Appenzolier. Campinas: Papirus, 1994.
               



[1]  Curso de Extensão: Cinema e literatura: um passeio intersemiótico pela cultura ibero-americana. Universidade Federal do Ceará.
[2] MACHADO, Irene. Apresentação: por que semiosfera. In: _________. (Org.). Semiótica da cultura e semiosfera. São Paulo: Annablume, 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário