Cinema e Cultura: o caminho do
labirinto
Alef Lima
Graduando em Ciências Sociais - UFC
O cinema
trabalha com fragmentos de temas e com fragmentos de espaço e de tempo de
diferentes grandezas, muda-lhes a proporção e entrelaça-os segundo a
contiguidade ou segundo a similaridade e o contraste, isto é: segue o caminho
da metonímia ou da metáfora (os dois tipos fundamentais da estrutura cinematográfica) - Roman Jakobson. Linguística, poética, cinema.
Considero uma atividade delicada
discutir sobre o cinema, pelo menos para mim que até um dia desses só o
enxergava a partir de uma interpretação imposta por mim enquanto espectador. No
decorrer das discussões e das leituras que pude ter acesso ao longo do Curso de
Extensão[1],
consegui minimamente compreender outros aspectos concernentes à arte
cinematográfica e como ela mantém contatos, relações, reciprocidades com outros
domínios semióticos, tais quais, a literatura, a cultura, a mitologia, a
história. Nesse sentido a proposta deste ensaio é perceber minimamente uma
possível relação intersemiótica entre a figura do um labirinto (relacionado ao
filme que será abordado), e a dimensão da cultura.
Como o cinema se assume enquanto
modo de dizer autônomo e mesmo assim atravessado pelo dizer da cultura? Essa
pergunta é um tanto redundante e conserva implícita uma reposta já acabada. O cinema enquanto arte autônoma vê-se inserido
nas tramas do contexto social de sua produção/reprodução, não é por acaso que a
cultura interfere no conteúdo no qual ele utiliza. Mas seria tão simples essa
inter-relação, a cultura simplesmente fornece conteúdo ao cinema enquanto ele
lhe garante uma forma, quer dizer, que o cinema esvazia-se de conteúdos para
garantir ao dizer da cultura uma nova forma, um novo estilo? Pelo visto nossa
pergunta ganha outros contornos quando configurada em conjunto com o debate
sobre as formas e os conteúdos. Agora a resposta previamente acabada
desintegra-se, segundo essa nova perspectiva.
Vejamos que nesse momento o que está
colocado em jogo é se existe nos cinemas conteúdos e se as culturas também podem
conferir formas aos cinemas. Para tanto é bom que esta hipótese seja melhor
elaborada numa análise, e que o plural das palavras cinemas e culturas seja
usado na tentativa de deixar mais aberta a envergadura da mesma. De todos os
filmes que vimos nos quatro encontros ao longo do curso já mencionado, o filme
de Guillermo del Toro, O Labirinto do
Fauno (2006) é de longe aquele no qual as relações entre cultura, história
e cinema se processam de maneira mais explícitas. Considerando evidentemente o
interesse do diretor em dar ênfase nessas fronteiras semióticas, mostrando-as
do ponto de vista daquele que está para atravessá-las, portanto é na travessia
que os signos tornam-se mais densos e, com efeito, mais “vistosos”.
No filme a pequena Ofélia de 13 anos
vê-se envolvida por uma narrativa fantástica, onde criaturas mágicas se
interpõem à jovem heroína. Uma dessas criaturas é o fauno, um curioso hibrido
antropomórfico, coberto de terra com ossos e pele de maneira, com chifres de
bode e com o tronco mimético ao peitoral humano. O fauno lhe conta uma
história, na qual ela (Ofélia) é descrita como uma princesa perdida que vagava
há tempos pelo mundo humano, seu pai que é um rei poderoso, abriu vários
portais sobre a terra aguardando seu retorno. Inclusive aquele onde ela estava:
o labirinto.
Essa narrativa exuberante e mítica é
colocada em contraste com um contexto histórico trágico e violento. Onde é retratada
a guerra civil espanhola (1944), rebeldes lutam nas montanhas contra a ditadura
fascista de Franco. Não por acaso Ofélia e sua mãe estão morando com um dos
generais que comanda o núcleo de ataque aos resistentes. Este general assume o
arquétipo do mal e da violência, e também representa um orgulho machista que
não tardará a ser desmembrado pelo advento da potência do feminino.
Nossa heroína é testada em três
provas que lhe servem como meio de angariar reconhecimento, que legitimem a
essência de realeza que ela possui. A primeira prova é libertar do
apodrecimento uma árvore ancestral que estava sendo ameaçada por um sapo
gosmento. Destruindo o sapo, ela salva a árvore. Na segunda prova ela deve conseguir encontrar
uma chave que é guardada por um banquete portentoso, mas o anfitrião desse
banquete é um monstro antigo que devora crianças, seus olhos são postos nas
palmas da mão e seu corpo causa repugnância. O fauno dar a Ofélia um pedaço de
giz e três fadas são mandadas ao encontro da criatura junto com ela, o giz é
utilizado para abrir a porta do salão, onde o monstro se localiza. Ela
consegue, porém duas das fadas enviadas pelo fauno são mortas.
Nesse meio tempo, sua mãe, que estava numa
gravidez difícil, morre e o relacionamento com o general tornar-se cada vez
mais insuportável, e cada vez mais a guerrilha da resistência avança e a
história transforma-se num labirinto de encontros. Ofélia e Mercedes (espécie
de copeira da casa em que vivia o general, Ofélia e sua falecida mãe). Ela nutria
afetos maternais pela menina e era membro secreto da guerrilha. Mercedes é
descoberta e o general tenta intimidá-la, no entanto ela foge. Nessa cena da
fuga Mercedes procura Ofélia para se despedi, a menina implora para ir com ela.
Ambas saem e tentam atravessar o rio que corta as montanhas onde a guerrilha está
escondida, porém no meio do percurso são pegas.
Na cena final Ofélia é morta pelo
general dentro do labirinto no momento em que decide não realizar sua terceira
e última prova, sacrificar seu irmão recém-nascido. Ao sair do labirinto o
general ver-se cercado pela resistência, entrega seu filho a Mercedes, tenta
falar algumas palavras, mas é morto no primeiro espaço de tempo em que seus
lábios de fecham. Chegando a ser meio mórbido, querendo ou não existe a
sensação que a cena devia acontecer de qualquer maneira.
O que haveria de cultura no filme
descrito? Bem, poderíamos de início considerar que o filme utilizar-se do
recurso do fato histórico em paralelo para realizar uma metáfora do processo
social que estava em curso, a dimensão política é tratada como ponte entre o
imaginário de Ofélia e os eventos da realidade retratada. Afinal de contas, uma
princesa que deve ressurgir para recuperar sua essência perdida no mundo
humano, nessa performance, ela acaba por posicionar-se contra algo ou contra
alguém. Porém não é apenas a única questão que pode ser levantada. As analogias
com essa dimensão da mitologia ocidental são imprescindíveis, quando queremos
observar que a elaboração fílmica se apropria das formas da cultura para contar
sua história.
Tomamos para isso o labirinto que é
tão caro a cultura ocidental, onde sujeito perde-se para se encontrar, onde o
esforço individual redunda na construção meritocrática do herói. O labirinto é
usado no mito de Teseu quanto ele enfrenta o minotauro, destruindo a fera e
seguindo os fios do novelo dado pela princesa para sair de lá. Mas Ofélia não é
Teseu, nem possuía o novelo que lhe garantiria a redenção. O labirinto do filme
não é só uma parte a mais do cenário, é nele que os processos paralelos entre
história e imaginário são possíveis, é por ele que se encontram. Ele nos serve
como um espaço exemplar de semiosfera; o labirinto e seus caminhos abrem-se
para Ofélia ao mesmo tempo em que se fecham para o general que a persegue. Esclarecendo
assim, que tudo que se localiza dentro do mundo de Ofélia é um não mundo para
seu perseguidor, considerando que na semiosfera: “Las estructuras externas, dispuestas
al outro lado de la frontera semiótica, son declaradas no-estructuras.”
(LOTMAN, 1996, p.16).
O conceito de semiosfera definido
pelo semioticista Iúri Lótman (1922-1993)[2], é
posto em destaque por permitir que dentro do labirinto compreendido enquanto
espaço intersemiótico entre os fatos das culturas e os meios da narrativa
cinematográfica entrem em diálogo, ele fornece em suma uma estrutura aberta que
move-se na associação entre os signos. Nesse sentido, o que é a semiosfera,
senão o espaço/meio/habitat onde se elaboram e se articulam as implicações
entre os signos, significando a possibilidade de sua interação e sobrevivência?
A forma e o conteúdo se diluem, o que resta agora da dualidade? A forma fílmica
empresta-se a narrativa histórica, a narrativa histórica como atributo da
cultura confere maior nitidez à forma fílmica. Qual das duas é a forma e qual é
o conteúdo?
Se o cinema se organiza pelos
fragmentos ajuntando-os segundo suas potencialidades, por que não esperar que
exista o transbordamento dos seus signos, e assim perceber que o cinema
enquanto linguagem recorre a um conjunto de dizeres que se referem às culturas.
O labirinto é um espaço projetado por uma ordem, mas tem como função causar
desordem, confundir os percursos, fazer emergir as encruzilhadas. É esse seu
sentido, o efeito dele no filme citado é fazer com que ocorra uma reescritura:
a cultura se inscreve no cinema, o cinema reescreve a cultura para adensar os
seus efeitos subjetivos no espectador. E com tudo isso que foi descrito e dito,
podemos imaginar outras metáforas para a semiosfera, mas por hora, apenas
entremos no labirinto para encontrar na última saída o retorno aos seus
caminhos que podem nos levar ao cinema ou às culturas.
Referências:
BAKHTIN,
Mikhail. (V. N. Volochínov) Marxismo e
filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da
linguagem. 14ª Ed. São Paulo: Hucitec, 2010.
BRAIT, Beth
(Org.). Bakhtin: conceitos-chave. 5ª
Ed. São Paulo: Contexto, 2012.
CAMPOS, Haroldo.
Da transcriação: poética e semiótica
da operação tradutora. Belo Horizonte:
FALE/UFMG, 2011.
EVEN-ZOHAR, Itamar. Polysystem studies. Poetics today 11:
1. 1990.
JAKOBSON, Roman. Linguística,
poética, cinema. 2ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.
LOTMAN, Iúri M.. Semiosfera:
de la cultura y del texto. Selección e traducción del russo por Desoderio
Navarro. Frónesis
Cátedra. Universitant de Valéncia, 1996.
MACHADO, Irene
(Org.). Semiótica da cultura e
semiosfera. São Paulo: Annablume, 2007.
PASSETTI,
Dorothea Voegeli. Lévi-strauss,
Antropologia e arte: minúsculo – incomensurável. São Paulo: EDUSP, EDUC,
2008.
TOLEDO,
Dionísio. Círculo linguístico de praga:
estruturalismo e semiologia. Textos reunidos, anotados e apresentados por
Dionísito Toleto; traduções de Zênia de Faria, Reasylvia Toledo e Dionísio
Toledo. Porto Alegre: Globo, 1978.
TORO, Del Guillermo. O
Labirinto do Fauno [Filme]. Dirigido por Guillermo Del Toro. Produzido por
Guillermo Del Toro. EUA. 2006.
VANOYE, Francis.
Ensaio sobre a análise fílmica /
Francis Vanoye, Anne Goliot-Leté; tradução de Marina Appenzolier. Campinas:
Papirus, 1994.
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